Vou colocar aqui o texto completo da Carolina Mendes, mas seria muito legal que todos vocês fossem até o link (http://www.esportefino.net/firme-e-forte/), pois além do texto, a repercussão e os comentários estão maravilhosos. Inclusive eu não resisti e deixei uma mensagem para ela e para todos os frequentadores.
Quando eu digo que torço para a Portuguesa, as pessoas me olham com desconfiança. Sabem do meu passado são paulino, ou acham que eu estou mentindo. Não estou.
Confesso que no começo foi por malcriação. Ano passado, estava irritada e envergonhada com o meu ex-time e comecei a procurar uma opção. Filha primogênita de um sujeito que adorava futebol, fui do pai e não da mãe. Cresci vendo futebol de domingo com o meu pai, deitada no sofá e falando palavrão. Vendo futebol podia falar palavrão.
Mesmo sendo do pai, nunca tive vontade de escolher o time dele. Escolher o da mãe seria considerado traição, considerando que ele era palmeirense e ela, corintiana. Fiquei quieta até aparecer o Raí na minha vida. Era um fenômeno, e eu que nunca soube lidar com derrotas, abracei a causa vitoriosa. Quase todos os meus amigos também são, por motivos diversos mas impulsionados pela época próspera. Estava armada a minha vida futebolística.
Tempo passou, eu cresci, fui descobrindo outros valores e comecei a me aborrecer. Me aborrecer com as piadinhas, me aborrecer com o clube, me aborrecer com os ídolos que seguiram. Não precisa ficar histérico, amigo são paulino, é como eu sinto e vejo as coisas. Fiquem a vontade, não estou julgando ninguém, mas chegou num ponto que pra mim não servia mais.
Futebol é responsável pelo primeiro pescotapa que o mundo nos dá. Você tem um time, ele ganha, e você aborrece os amiguinhos que torcem pra outros times. Aí seu time perde e você tem que dar a cara a tapa. E sua mamãe não pode fazer nada, e não pode controlar as maldades das outras crianças. Ela pode desligar a TV da sua casa antes do apito final, mas não pode desligar as TVs das outras casas.
Eu que, neta de um catalão expatriado pelo Franco, torcia pra um time que teve uma ligação bastante curiosa com o governo militar, me peguei sem time. E aí lembrei dos times românticos, escolhi a Portuguesa. Aquela que é segundo time de todo mundo e que tem uma torcida que cabe numa Kombi. Escolhi e fui a um jogo.
Meio do ano passado, a Lusa na série B do Campeonato Brasileiro, um frio medonho. MEDONHO. Maço de Marlboro, máquina fotográfica, umas dilmas pra comprar uma Coca zero e um dos infames bolinhos de bacalhau. Fui sozinha e me apaixonei.
No minuto em que entrei no Canindé pela primeira vez. Olhei os rostos, as crianças, os velhos, os bigodes e os clichês. Cara do amendoim que as pessoas conhecem pelo nome. Nenhum momento de medo, nenhuma atitude da famosa Leões da Fabulosa, que até aquela noite era descrita pra mim como a irmã violenta do Taliban.
Futebol, bolinho de bacalhau, Coca zero, 2 gols pra Lusa e 1 gol pro outro time.
Era isso que eu queria: sentir tesão e ver futebol, independente do resultado. Do ano passado, guardei todos os ingressos das idas solitárias ao Canindé e o gosto amargo de não ter subido para a série A. Curado meu amor pelo futebol, voltei ao SPFC? Nem fod@*@*. Tem algo de mágico na Lusa e no Canindé, um jeitão despretencioso e estabelecido, seguro de que uma derrota é só mais uma, assim como uma vitória é só mais uma. E que filhos, netos, amigos, e netos e filhos do vendedor de amendoim estão e estarão lá. E a Carolina, que segue apaixonada e que acredita que a Lusa sobe esse ano, como acreditava no ano passado.
Carolina que vai acreditar e ir ao Canindé enquanto tiver amor pelo futebol, tesão por esse bueiro encantador que é a cidade de São Paulo, e pela vida. O cigarro a céu aberto, sob sol escaldante, na arquibancada do Canindé é dos prazeres que eu descobri no último ano que mais me alegram. Exagero? Qual o seu time? A Lusa é que não é. Fosse, você entenderia.
Em tempo: terça eu fui ao Canindé, e a Lusa perdeu. Aos trombeteiros do apocalipse praticantes de bullying: foi a primeira vez que eu vi a Lusa perder ao vivo neste ano, não é meu o pé frio. A torcida cantou e empurrou mas o nosso gol não saiu. Fiquei feliz por não conseguir parar o carro dentro do estacionamento do estádio porque estava cheio, e eu espero que fique cada vez mais cheio.
O trânsito, atravessar o centro da cidade, ficar parada na Marginal Tietê de olho nos holofotes do Canindé, sozinha no carro. Levar uma Heineken pra beber antes de entrar, e passar 2 horas ali ouvindo meus amigos torcedores com um olho no jogo e outro nos filhos: amor. É isso que futebol tem que ser, xingar a mãe do juiz enfurecidamente, virar pro cara que tá do seu lado e rir.
Fiquem com os times badalados de vocês, deixa a gente na Kombi, comendo bolinho de bacalhau, brigando pra chegar na Série A, vivendo bem pra caral@*.”
Essa é a Lusa ou Portuguesa, como preferirem chamar, time que amo demais. Aos que lerem esse texto, considerem-no um convite a uma visita ao Canindé. Se não quiserem ir sozinhos como foi a Carolina, basta me ligar, mandar e-mail, comentário no Blog, faço questão de encontrá-los e apresentar a todos o que de maravilhoso tem esse clube.
Tenho certeza que será uma experiência inesquecível! Aceitam?
Cabral, muito bom mesmo o texto, valeu a indicação. E parabéns pelo blog, muito legal!
ResponderExcluirMarlo
Olá. Minha esposa me apresentou seu blog e, logo de cara, li este texto fantástico da Carolina Mendes. Curiosamente, carioca que sou, fiz o caminho inverso: Torcia para o Vasco, que é chamado de "primo carioca" da Portuguesa e, ao me mudar para São Paulo, desgostoso com o time de São Januário, optei em torcer para o SPFC - exatamente pela questão dos títulos, etc.
ResponderExcluirAo ler o texto acima, porém, bateu uma enorme curiosidade de conhecer a Portuguesa, pois concordo com as observações da autora com o que o futebol acaba por fazer com nossas vidas, quando deveria ser uma diversão, no mínimo, salutar.
A curiosidade sobre a Lusa já havia sido despertada através do Globo Esporte, onde o estádio do Canindé é sempre chamado de "a ilha de Lost do campeonato brasileiro". Sempre que passo pela marginal Tietê, me chama a atenção o estádio e sua singular arquitetura/posição - do shopping Center Norte, por exemplo, dá para visualizar uma parte das arquibancadas.
Enfim, ficou um gostinho de que gostar de futebol e da Lusa é muito diferente de, simplesmente, torcer...
Parabéns pelo blog!
Marlo, muito obrigado pelo comentário. Já encaminhei o seu blog para minha esposa. Eu sou horrível na cozinha, mas ela até leva jeito para a coisa embora não goste muito.
ResponderExcluirValeu!
George, fica aqui um convite formal para ir ao Canindé comigo. Podemos marcar e comer um bolinho de bacalhau ou uma alheira antes do jogo se preferir. Fico a disposição para apresentar o clube para você. Quando quiser me avise, estou em quase todos os jogos.
ResponderExcluirGrande abraço
Obrigada pelo comentário gentil a respeito do texto. É honesto e tenho muita sorte de ter encontrado a Lusa para mudar minha relação com o Futebol e com as pessoas. Aprendi muito nesses 3 anos de Canindé.
ResponderExcluirDe nada! Seu texto é muito bom. Uma pena o clube não conseguir manter o futebol do ano passado, mas faz parte, você acostuma...
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